Category: Vária


Há muito que é ponto assente que o Homem é um animal social. Já o dizia Aristóteles que defendia que o Homem só se consegue realizar plenamente quando inserido na sociedade. Esta inserção, hoje concebida como lhe sendo imanente, consegue recuar-se até aos primórdios da Humanidade, evidente em conceitos como Família, a pertença a um grupo, seja a tribo, o clã ou os atuais grupos do facebook. A verdadeira identidade de um ser humano, ou a identidade do Ser, revela-se e trabalha-se através da interação com o outro, seja a um nível sociocultural, seja enquanto cidadão da pólis.

Como conseguir explicar, então, que estejamos rodeados por gerações de angustiados que procuram algo a que esqueceram o nome e que, no processo, se sentem tremendamente solitários?

A aparente plenitude de recursos, para melhor sobreviver à natureza dura e selvagem, tem-se acumulado e desvirtuado com a ideia de multiplicação de possibilidades e de escolhas de alimentos, de objetos necessários ou não, de relações interpessoais… Mas, na verdade, passámos a depender de habitações que não sabemos construir, comida pronta ou pré-preparada que não colhemos com o suor do nosso rosto e não sabemos como se produz, acumulando coisas que desconhecemos no nosso dia-a-dia: como funciona o telefone que faz chegar a nossa voz até ao outro lado do mundo, como fazer uma fogueira, como sobreviver se hoje mesmo nos despissem de toda a tecnologia ciosamente adquirida.

Salvo alguma feliz exceção como os escoteiros, nenhum de nós estaria alguma vez preparado, psicológica ou emocionalmente, para abandonar todo este conforto, tudo pronto a consumir, não sem antes nos queixarmos do próprio sistema que alimentamos.

Esta angústia de discordância parte, muitas vezes sem se saber, por o Homem se sentir desenraizado do ambiente que o envolve, seja o grupo, seja a Humanidade inteira. É-nos inerente, enquanto o pouco que em nós resta de animais, procurarmos preparar-nos para a escassez de alimentos, para o frio, para nos afastarmos da solidão. Está codificado na nossa informação genética que somos gregários, partilhar ou trocar recursos é a melhor forma de sobreviver. É também a melhor forma de criar laços.

Mas há muito que se diz também que a sociedade está a chegar a um ponto de não retorno. O esgotamento progressivo dos recursos de que se fala há mais de 50 anos começa na minha geração a tornar-se evidente, e o Ser alienado ligado às máquinas que serve quando pensa ser servido, substitui os laços que se atam com um sorriso pelo binário do email.

Apesar de as desigualdades sociais e geográficas lançarem alguma penumbra sobre estas tomadas de consciência, engrossam as fileiras daqueles que, apesar de não deixarem a cidade, exercem os seus deveres cívicos em plenitude, fazendo voluntariado, reciclando, não desperdiçando recursos. Chegámos a um ponto em que temos de decidir qual é o caminho. Há que seguir em frente, mas para onde?

Alguns, muitos jovens, retornam agora à terra. Procuram novamente a estrutura da tribo ou o contacto com o eterno sagrado, cultivam a terra e vivem de sol a sol em comunhão com a natureza. E para eles, tudo faz sentido dessa forma, o divino imanente revela-se-lhes nesses ciclos de que nós, urbanos, talvez já nos tenhamos esquecido.

Outros palmilham as cidades vivendo um dia de cada vez, muitos angustiados outros talvez anestesiados pelos luzes bruxuleantes da aparência, outros cientes de que esta será a única forma que lhes faz sentido de contribuir com um verso para o grande poema da vida.

Em comum, todos eles sabem que nunca essa comunhão com a natureza poderá ser uma coisa egoísta, nunca as nossas angústias podem ser resolvidas orgulhosamente sós.

Pelo mundo afora, está a chegar o Natal. E o meu pensamento vai para aqueles que ficam do lado de fora da janela embaciada a ver brilhar as luzes dos outros.

Tenho dúvidas que Rosseau tivesse razão quando dizia que o Homem nasceu bom e livre e é a sociedade que o corrompe. Acho, pelo contrário, que não escutamos com o coração e não vemos com os olhos da alma. A natureza não é boa nem má, ela existe, ela é, tudo o resto são espécies que surgem ou se apagam no bater de asas de uma borboleta. Tudo o resto é o Homem à procura de compreender o sentido de tudo isto.

Em 200 mil anos aprendemos a sobreviver e é isso que fazemos todos os dias, mas não podemos nunca esquecer-nos que o caminho do egoísmo leva, a breve trecho, à autodestruição. É preciso seguir em frente, sem medo, e estar presente em cada instante, nessa água que corre tumultuosa por debaixo de uma ponte, nessa nuvem que se desfaz, nas várias tonalidades da vida, da terra e saber que Partilha não é uma palavra vã, é uma aprendizagem, seja com a nossa família, seja com as sociedades em que nos vamos inserindo ao longo da vida. Cá dentro é Natal, lá fora está muito frio e as pessoas apressadas tremem nos seus casacos da última coleção.

São sentimentos confusos quando os meus olhos se voltam para aqueles que não têm nome, que não têm voz.

O Homem não nasceu para estar só e é um dever cívico não voltar os olhos para não ver. Por isso, este ano, o meu voto de Natal é que todos nós comecemos, no nosso coração, a trabalhar para que essa mudança aconteça.

Ana Brilha

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Sentada à janela, Shiori bordava. Sobre um kimono cor-de-rosa desenhava com linha ocre e dourada os diversos contornos de um leque aberto e de folhas secas sopradas pelo vento. Nas mangas, pequenos crisântemos de inverno pareciam tocados pela brisa do amanhecer. Em tantos dias trabalhava já naquela pequena obra de arte que a menina Naomi usaria no Sichi-go-san no seu sétimo aniversário e, enquanto a agulha fazia a sua dança colorida através do tecido, Shiori deixava a sua mente vaguear.
Eram muito diferentes de si as pessoas que usavam as suas obras, com o gosto da opulência, poucas compreendiam o significado de cada um dos pontos, a simbologia dos motivos e das cores que usava e que em cada uma deixava muito de si e da sua alma. Ela conhecia a magia das cores, nas suas mãos um ténue fio de linha desinteressante tornava-se um pássaro quase em movimento a beijar as flores da primavera, mas Shiori por vezes sentia-se muito só. Tinha vestido damas da corte e até nobres dignitários, muitos deles eram já memórias e pouco mais que o pó que se cola aos tabis na estrada, tinha visto ascensões políticas assombrosas e quedas na miséria ou na desonra tão ou mais aparatosas e permanecera sempre serena, entre as suas flores de cerejeira e colibris, tratando as cores por irmãs e fazendo quadros em movimento. A beleza fugaz de um instante tinha provocado paixões intemporais e Shiori sentia-se estranhamente cúmplice desse vestido que saíra das suas mãos e dos três filhos que nasceram desse casamento feliz. Por isso Shiori bordava, à luz do sol que se escoava pela janela, de onde via uma pequena nesga de céu e o que era o seu mundo inteiro. Das suas mãos nasciam dragões vermelhos bufando fumo pelas narinas e outros animais de lenda. Nunca os tinha visto, mas a todos tratava por iguais, todos eram seus filhos, e sempre lhe tinha bastado essa magia de criar e tecer destinos com uma paleta infinita, nunca se questionava, nunca se expunha. Aparentemente uma peça era encomendada com indicações mais ou menos precisas e, concluída dentro do prazo, era pago o preço acordado. Mas não era por isso que Shiori trabalhava incansavelmente, simplesmente, desde que se lembrava, tinha este dom. Os seus olhos nunca se desviavam da retidão do desenho, da curva das hastes das flores e era como se vivesse nesse mundo de coisas irreais e imaginadas.
No dia em que concluiu a encomenda para a menina Naomi, recebeu instruções para ir entregar a obra a casa dos pais. Shiori arranjou-se, calçou os seus melhores tabis, apertou contra si o embrulho, e saiu para a rua procurando proteger-se da chuva miudinha daquele fim de tarde.
Os ruídos à sua volta, como uma canção tamborilante, foram ensopando a sua alma. A menina Naomi, apesar de tão jovem, estava já prometida a um nobre com mais do dobro da sua idade. Shiori nunca tinha tido esse problema, os omiai eram para os ricos, para alianças políticas ou comerciais em que se usavam os filhos como moeda de troca. Shiori sempre tinha sido livre, mas nunca tinha amado. Afastou esse pensamento e seguiu, segurando nas mãos húmidas da chuva o chapéu frágil. Parecia que toda a natureza consigo chorava esse amor que tantos sonham e poucos encontram. Está tudo errado – pensou.
Naomi nunca recebeu o seu kimono, mas também nunca soube o quão importante fora na vida de Shiori. Nunca se cruzaram, nunca puderam trocar uma palavra, mas ficaram ligadas nesse instante em que tudo mudou.
No dia seguinte, ao amanhecer, Shiori tinha partido. Ninguém soube para onde foi, mas para onde quer que tenha ido, deixou pássaros e dragões e crisântemos adormecidos num voo colorido de segredos.
As vizinhas perguntavam-se para onde tinha ido deixando todos aqueles tesouros, e o aguadeiro, que passava gritando o seu pregão, assegurou-lhes que a tinha visto seguir o voo de uma borboleta.
Ana Brilha

convite Ana Brilha (2)

A moira do poço da vila

O Mário, com as suas mãos pequeninas, costumava esconder, bem no fundo do pote que ficava defronte da casa dos avós, toda a espécie de brinquedos. Era como uma arca do tesouro, onde soldadinhos de chumbo e piões rodopiavam na sua imaginação com piratas e bolas de todos os tamanhos e feitios.
Desse mundo de infância ele guardava a imagem do avô, autoridade serena que tinha toda a espécie de estórias na algibeira, ao calor da lareira, quando lá fora o vento e chuva uivavam por entre as traves do telhado como que a reclamar entrada.
O Mário não se importava que os brinquedos ficassem sujos com a terra que se acumulava no fundo do pote por entre trevos de três folhas, era como uma gruta das lendas de onde até poderia sair um dragão a uivar e a sibilar. Mas quando o Mário tinha sete anos os pais mudaram-se para Lisboa. Longe ficaram as noites à lareira com os avós, estendendo-se os abraços por natais irregulares porque, diziam os pais, a viagem era longa. Longe ficou também a sua companheira de brincadeiras, a Amélia, tão loirinha como uma boneca, que na véspera da partida lhe ofereceu a sua libelinha mais bonita, para que por ela lhe mandasse cartas a contar das novas brincadeiras e das aventuras na escola. O Mário nunca escreveu. Ainda estava a aprender as letras e achava que não ia escrever de forma bonita todas as coisas que o assaltam, todas as suas perguntas e todas as suas descobertas.
Longe ficaram os anos, porque a vida é um sopro, e esse primeiro amor de que não reza a história. O Mário aprendeu um ofício, casou, e teve duas lindas meninas loirinhas e traquinas.
Num desses natais, o Mário foi visitar os avós. A família reunida, a avó velhinha de bengala e xaile preto, a mãe de roda do fogão a lenha e aquele calor tão presente que é estar num tempo que nos traz tantas memórias.
O pote ainda lá estava, bojudo, a transbordar de trevos todos de três folhas, três corações verdes numa dança em que a vida não tinha ainda acontecido.
Dentro do pote tinha guardado tudo aquilo que era importante para si, os assaltos ao castelo, as quedas do muro da vizinha, o seu primeiro amor. Só nunca olhara verdadeiramente os trevos, esses pequeninos corações verdes a transbordar de orvalho que lhe lembravam todo o amor da sua família.
O avô veio à porta:
– Já te contei a estória da moira do poço da vila?
O avô já tinha contado, mas essa herança havia de passar, ao menos, para as suas filhas, ainda que um dia se esquecesse. O Mário sentou-se, criança outra vez, sem rugas nem cabelos brancos na alma, a ouvir a voz cava do avô:
– Dizem os antigos, que antes de ser fundada a vila, havia no monte um poço a que chamavam o poço dos pastores…
Ana Brilha